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Venerável Mestre Hsing Yün

Conceitos Fundamentais do Budismo Humanista

Buscar a iluminação além deste mundo é como procurar chifre em cabeça de cavalo.

Considerações sobre a obra

Conceitos Fundamentais do Budismo Humanista é um livro muito interessante e bastante técnico, digamos assim. Ele busca explicar as premissas desse budismo, suas crenças e toda essa questão. Ao longo do livro, são apresentados temas como os cinco veículos, os cinco preceitos e as dez ações virtuosas, os quatro estados ilimitados da mente, as seis paramitas e os quatro meios de acolhimento. Toda essa lógica é apresentada de maneira bastante direta.

Ao mesmo tempo, achei superficial a forma como alguns desses temas são abordados. Também não gostei muito dos exemplos utilizados. Honestamente, achei alguns deles bem ruins. Em determinado momento, por exemplo, os Estados Unidos são utilizados como exemplo, mas aquilo apresentado no livro acabou colapsando diante da realidade posterior do próprio país. Dessa forma, o exemplo acaba funcionando mais como um registro histórico do passado do que como algo que represente a atualidade. Por isso, tive essa pequena ressalva.

A mesma lógica aparece, por exemplo, quando o livro trata do preceito de não utilizar substâncias entorpecentes. Um dos argumentos apresentados é o de que o uso dessas substâncias leva pessoas à prisão e que, se os preceitos fossem seguidos, não haveria ninguém preso por esse motivo. Achei esse argumento fraco. Entendo que se trata de um livro inicial e curto, feito apenas para oferecer uma noção básica do tema, mas justamente por isso ele deve ser tratado como tal. Não é um livro grande, não é um livro grotesco, não é nada disso. É um livro curto e, para aquilo que se propõe dentro desse formato, é muito bom.

A leitura também me fez discordar de alguns preceitos do budismo humanista. O livro comenta que, na época de Buda, existiam determinadas vertentes e que, aproximadamente 300 anos depois, surgiu outra vertente. Posteriormente, teria surgido ainda uma terceira, de caráter esotérico. O budismo humanista trabalharia com essas três vertentes.

Eu sou muito puritano quando se trata de textos sagrados. Acredito bastante nesse purismo, digamos assim, seja no purismo bíblico ou no purismo das próprias ideias budistas. Quando estudo budismo, gostaria primeiro de estudar a base budista, aquilo trazido por Buda, para depois talvez avançar para as ideias de algum venerável ou para outras variações. Na minha concepção, a base primária deveria ser aquilo que veio do Buda real.

Por isso, apesar de ter entendido que essa integração entre diferentes vertentes faz parte dos preceitos do budismo humanista, o livro não explica suficientemente quais são essas três bases. Ele apenas apresenta a ideia de que o budismo humanista segue as três. Dessa forma, eu precisaria realizar um estudo externo sobre cada uma delas para compreendê-las melhor e, somente depois disso, fazer um julgamento real, e não apenas um pré-julgamento, sobre o budismo humanista.

O livro também comenta sobre o Bodhisattva, entendido como aquele que não se torna Buda no sentido de recusar a vida e a materialidade da existência como um todo. Ele não transcende para o nirvana, mas vive tal qual um Buda humano viveria, digamos assim. Acredito que essa lógica explica bastante a própria ideia do budismo humanista, principalmente pela compreensão de que a recusa da realidade e a transcendência da matéria como um todo são questões bastante complexas.

No geral, é uma leitura curta, fácil e muito boa. É um livro introdutório, técnico dentro daquilo que se propõe e que oferece uma visão inicial sobre os principais conceitos do budismo humanista. Apesar das ressalvas em relação à superficialidade de alguns pontos, aos exemplos escolhidos e a determinadas posições com as quais não concordei, considero que, para um livro curto, ele cumpre muito bem sua função.

Contextualização e resumo

O livro Conceitos Fundamentais do Budismo Humanista apresenta, inicialmente, o próprio budismo humanista e alguns de seus principais preceitos, como o humanismo, a ênfase na vida diária, o altruísmo, a alegria, a oportunidade e a universalidade. Uma das ideias apresentadas é a de que o budismo fala sobre passado, presente e futuro, mas o budismo humanista concentra sua atenção principalmente no presente, justamente por ser aquilo que estamos vivendo agora. O livro trabalha bastante essa lógica e a importância do presente em si.

Em seguida, são apresentados os cinco veículos, entendidos como diferentes modos de prática: o veículo humano, o celestial, o Śrāvaka, o Pratyekabuddha e o Bodhisattva. São formas diferentes, mas que coexistem dentro dessa estrutura.

Depois, o livro apresenta os cinco preceitos: evitar matar, roubar, mentir, ter má conduta sexual e fazer uso de substâncias entorpecentes. Também são apresentados os quatro estados ilimitados da mente: generosidade, compaixão, alegria e equidade.

Posteriormente, são abordadas as seis paramitas e os quatro meios de acolhimento do Bodhisattva. As seis paramitas são: generosidade, moralidade, paciência, diligência, concentração meditativa e sabedoria. Já os quatro meios de acolhimento são: generosidade, fala amorosa, ações benéficas e empatia.

Dentro dessa lógica aparece também a ideia do Bodhisattva. Para atingir o estado de Buda, de certa forma, seria necessário abrir mão do mundo como um todo. Entretanto, muitas vezes isso não acontece e talvez nem seja algo realista, pois as pessoas vivem neste mundo, e recusar completamente o mundo seria, de certa forma, recusar a própria existência. Por isso surge novamente a importância do caminho do meio. Esses grandes veneráveis não seriam necessariamente Budas, mas Bodhisattvas, representando esse outro lado da moeda: continuam inseridos na existência e atuando dentro dela.

Nessa parte do livro também aparecem exemplos relacionados a esses princípios. Um deles utiliza os Estados Unidos como referência de uma sociedade que apresentaria muitas dessas características. Entretanto, esse exemplo está claramente desatualizado diante da realidade atual.

Outro tema importante é a relação entre causa e condição, causa e efeito. O livro comenta que muitas pessoas confundem relações causais de âmbitos diferentes. Alguém pode perguntar: “Eu cultuava o nome de Buda, então por que determinada coisa aconteceu comigo?” ou “Eu era vegetariano, então por que tenho problemas de saúde?”. Entretanto, essas situações podem envolver causas e efeitos pertencentes a âmbitos completamente diferentes. Uma coisa pode estar relacionada ao campo econômico, outra ao social e outra ao alimentar.

Dentro do budismo, causa e efeito são apresentados como uma espécie de lei elementar ou basal do universo. Para toda causa e condição existe uma relação de causa e efeito, e essas relações existem simultaneamente. Entretanto, essa ideia pode ser mal interpretada quando diferentes tipos de causa são misturados.

Para ilustrar essa interdependência, o livro apresenta a história de um homem que plantou um coqueiro em sua casa. Outro homem passa pelo local e pega um coco. O proprietário reclama: “Você pegou o meu coco”. O outro responde que o coco não pertencia a ele, mas à árvore. O proprietário então argumenta: “Mas fui eu que plantei a árvore”. E o homem responde que não pegou a árvore; ela continuava lá, pois ele havia pegado apenas o coco.

A lógica do exemplo está justamente na impossibilidade de separar completamente o coco da árvore. Um está interligado ao outro. Não é possível simplesmente desvinculá-los, e essa relação ajuda a demonstrar a importância da lei de causa e efeito.

Posteriormente, o livro apresenta o Chan, a Terra Pura e o Madhyamaka como diferentes ensinamentos budistas.

O Chan é um ensinamento bastante focado na meditação. A Terra Pura, por sua vez, apresenta a ideia de viver da melhor maneira possível dentro dos preceitos budistas para que, após a morte, seja possível atingir a Terra Pura, entendida como outro estado ou local de existência.

Já o último ensinamento trabalha principalmente com a escolha do meio. O meio é relevante e primordial, surgindo novamente a lógica do caminho do meio, da evitação dos extremos e da busca por uma posição que não esteja presa a nenhum dos dois polos.

O livro também apresenta alguns dos principais lemas do budismo humanista: proporcionar confiança às pessoas, proporcionar alegria às pessoas, proporcionar esperança às pessoas e proporcionar condições favoráveis às pessoas.

Essa lógica se relaciona com a tentativa de transformar o próprio mundo real em uma espécie de Terra Pura. Em vez de simplesmente perguntar por que seria necessário esperar morrer para alcançar a Terra Pura, surge a possibilidade de tentar construir essa Terra Pura aqui e agora, dentro da própria existência.

Assim, o livro apresenta de maneira introdutória os cinco veículos, os cinco preceitos, as dez virtudes, os quatro estados ilimitados da mente, as seis paramitas, os quatro meios de acolhimento do Bodhisattva, causa e condição, causa e efeito, Chan, Terra Pura e Madhyamaka. Todos esses elementos são utilizados para estruturar uma visão geral dos conceitos fundamentais do budismo humanista e de sua tentativa de aplicar os ensinamentos budistas diretamente à vida humana e ao mundo presente.