Venerável Mestre Hsing Yün
A Essência do Chan
No momento em que a linguagem é usada para explicá-lo, já não estamos lidando com a sua verdadeira essência.
Considerações sobre a obra
A Essência do Chan é um livro muito interessante. Acredito que ele bate bastante na tecla da lógica da filosofia budista. É um livro muito curto, que se lê em uma sentada, talvez em menos de meia hora ou por volta de 30 minutos. Ao mesmo tempo, é uma leitura muito boa, interessante e fácil de realizar. Por isso, é um livro que recomendo.
Mais do que isso, é uma obra que trabalha muito bem a ideia filosófica do Chan e realmente consegue analisá-la de maneira clara. O livro explica de forma compreensível questões como existência e não existência, pureza e impureza, essência e não essência, de certa forma, conseguindo deixar clara essa dualidade.
Por ser um livro curto, ele é muito enxuto e direto ao ponto em vários momentos. Talvez, para uma pessoa que não tenha tanto conhecimento sobre o budismo ou sobre a filosofia budista, e que escolha esse como seu primeiro livro sobre o assunto, algumas partes possam parecer um pouco confusas e exigir mais de uma leitura para serem completamente compreendidas. Ainda assim, não há nada que esteja fora da compreensão ou que seja impossível de entender. Tudo apresentado no livro é compreensível.
É, portanto, um livro muito bem escrito e muito direto ao ponto. É uma leitura fácil de ser feita, mas que, ao mesmo tempo, possui um conteúdo importante e relevante, principalmente considerando o quão curto o livro é.
É um livro muito bom e que recomendo que seja lido. Sua leitura é curta o suficiente para não exigir muito tempo e, ainda assim, oferece bastante informação. Dessa forma, não é, de maneira alguma, uma leitura desperdiçada.
Contextualização e resumo
O livro A Essência do Chan começa apresentando uma pequena história e explicando a ideia do Chan, isto é, o que seria esse conceito. Para isso, traz um conto sobre Buda, no qual ele está no alto de uma montanha para realizar um ensinamento. Tanto seus discípulos quanto os deuses o observam e, em determinado momento, a única coisa que Buda faz é pegar uma flor e levantá-la. Entre os milhões de seres presentes, a única pessoa que entende aquilo é seu discípulo mais velho.
O Chan poderia ser traduzido, basicamente, como “contemplação serena” ou como uma espécie de “absorção meditativa”. O conto de Buda levantando a flor demonstra justamente essa ideia. Quando seu discípulo compreende o gesto, nenhuma palavra é dita entre ele e Buda. Buda apenas levanta a flor; os milhões de seres presentes não entendem, mas seu discípulo sorri. A contemplação serena de Buda havia sido transmitida ao discípulo. Ambos souberam e compreenderam aquela cena por meio da contemplação como um todo.
1 — Existência e Não Existência
No primeiro capítulo, Existência e Não Existência, o livro apresenta a ideia de que existência e não existência são, de certa forma, simultaneamente verdadeiras e equivalentes. Para demonstrar isso, são apresentados dois poemas: um escrito pelo discípulo do quinto patriarca da escola Chan e outro por um trabalhador do moinho de arroz.
O poema do discípulo dizia:
O corpo é uma árvore Bodhi.
A mente é como a base de um espelho brilhante: limpa-a constantemente; não permita que o pó se assente.
Já o poema daquele que trabalhava no moinho de arroz dizia:
Bodhi não é árvore.
Espelho brilhante tampouco é a base.
Essencialmente, nada é.
O que pode empoeirar-se?
Esse trabalhador posteriormente se tornou o sexto patriarca. A ideia apresentada é a de que ser e não ser, existência e não existência, agem em conjunto e existem conjuntamente. Ser ou não ser, mente e matéria: tudo está interligado e, de certa forma, tudo é igual. Não existe uma fronteira clara entre aquilo que existe e aquilo que não existe.
O mestre Chan seria aquele que possui a habilidade de olhar para uma montanha ou para um rio e não ver uma montanha nem um rio, pois nada disso existe de maneira absoluta. Trata-se apenas de uma interpretação da consciência, de uma realidade criada pela mente com base nos impulsos que ela recebe. Ao mesmo tempo, porém, a montanha e o rio existem. O mestre Chan é justamente aquele capaz de lidar com essa dualidade, compreendendo que existência e inexistência estão ligadas simultaneamente. Nada é, mas tudo é.
Nesse mesmo contexto, o livro apresenta o exemplo do cachorro. Perguntam a um mestre se um cachorro possui natureza búdica, e ele responde que sim. Posteriormente, outra pessoa faz a mesma pergunta e ele responde que não. O cachorro possui natureza búdica e, ao mesmo tempo, não possui natureza búdica. Os dois lados são reais. A resposta oferecida ao discípulo é aquela que ele precisava ouvir, pois ambas as respostas são verdadeiras e corretas e, ao mesmo tempo, não existem e são indiferentes.
2 — Atividade e Passividade
No segundo capítulo, Atividade e Passividade, são apresentados os três selos do Dharma: todos os fenômenos condicionados são impermanentes; todos os fenômenos são destituídos de um eu independente; e o nirvana é a tranquilidade perfeita. Essa tranquilidade é diferente do conceito ordinário de inatividade ou passividade.
O livro apresenta o exemplo de uma bandeira. Uma pessoa afirma que aquilo que move a bandeira é o vento, enquanto outra poderia argumentar que não seria possível saber que o vento está soprando se a bandeira não se movesse. Assim, quando a bandeira se move, um discípulo afirma que é o vento que está se movendo e outro diz que é a bandeira que está se movendo. O mestre Chan, porém, afirma que não é o vento nem a bandeira que se movem, mas as mentes.
A interpretação sobre aquilo que aconteceu é o que permite à consciência tomar conhecimento do acontecimento. Portanto, torna-se indiferente se o vento move a bandeira ou se a bandeira se move com o vento, porque a própria consciência do vento e da bandeira é produzida pela mente. Aquilo que se move é a mente. Se algo além dela também se move, isso pouco importa, pois esse movimento externo somente poderá ser compreendido por meio do movimento da mente. Logo, apenas a mente se move.
A partir disso, o capítulo trata do estado de tranquilidade e de como passividade e atividade existem ao mesmo tempo. Um dos exemplos apresentados é o de um oficial confucionista que vai conversar com um venerável monge budista. O venerável permanece meditando e, para não atrapalhá-lo, o oficial espera. Ele espera durante muito tempo, até começar a ficar irritado.
Em determinado momento, um discípulo do venerável diz algo no sentido de que aquela meditação não serviria para o oficial, pois aquilo que estava sendo testado era sua paciência. Essa afirmação era verdadeira para o oficial. A passividade e a meditação do mestre Chan haviam influenciado ativamente o oficial. Dessa forma, mais uma vez surge a dualidade: a passividade também é uma forma de atividade. Assim como ocorre com existência e não existência, os dois lados da moeda coexistem.
3 — Prática e Compreensão
No terceiro capítulo, Prática e Compreensão, o livro apresenta a ideia de que o estado denominado Chan, essa contemplação serena, não pode ser propriamente explicado por palavras nem por imagens. Ele precisa ser vivido para ser compreendido.
A tranquilidade desse modo de viver, sua compreensão, sua aceitação e a maneira pela qual ele se realiza precisam ser experimentadas. Não é possível vivê-lo sem entendê-lo, assim como não é possível entendê-lo sem vivê-lo. Por isso, deve-se cultivar o caminho e cultivar essa experiência.
O cultivo torna-se extremamente importante para que a pessoa consiga se aproximar do Chan e alcançar esse estado. Tudo pode fazer parte do Chan. Cortar lenha, vestir uma roupa e realizar as atividades da vida cotidiana fazem parte de seu cultivo. É também por isso que os monges vivem em monastérios: o próprio modo de viver naquele ambiente cultiva o Chan. No entanto, em última análise, é simplesmente viver com o Chan que o cultiva.
A flor levantada por Buda é o próprio Chan. Não é a explicação dada sobre a flor, não é uma descrição ou uma interpretação do gesto, mas o próprio movimento e aquilo que foi realizado. Por isso, o cultivo é extremamente importante para a compreensão e para o desenvolvimento do Chan como um todo.
4 — Pureza e Impureza
No quarto capítulo, Pureza e Impureza, o livro apresenta a ideia de que, se nossa mente é pura, a terra também é pura, pois pureza e impureza são conceitos subjetivos e, em última análise, irrelevantes.
Para representar isso, aparece um pequeno diálogo. Uma pessoa afirma: “Eu sou o burro”. A outra responde: “Eu sou o traseiro do burro”. A primeira continua: “Então eu sou o excremento do burro”. A segunda responde: “Então eu sou a larva dentro do excremento”. Sem conseguir formular uma nova resposta, a primeira pessoa é questionada pelo companheiro: “O que você está fazendo dentro do excremento do burro?”. E responde: “Estou me refrescando do verão”.
Essa é a lógica do Chan em relação à pureza e à impureza. Se a mente é pura, o impuro não existe, pois a própria mente e o mundo interpretado por ela serão puros. Se a mente é pura, a terra será pura.
5 — A essência do Chan
No quinto capítulo, o livro continua desenvolvendo a questão do Chan e de sua prática. Para investigar o que é o Chan, é necessário utilizar a dúvida, o questionamento e a contemplação, realizando-o posteriormente por meio da experiência pessoal.
É necessário compreender que tudo é Chan. O riacho e o som do rio são Chan e são o som do Chan. As folhas verdes são a cor do Chan. Ver os brotos crescerem é a mente do Chan. Tudo é Chan e tudo funciona com o Chan.
Essa é, portanto, a essência do Chan.